sexta-feira, 2 de março de 2018

Atemporal ( Parte II)





Eduardo apareceu em sua porta as nove horas em ponto. Vestido com um blazer azul marinho, uma calça jeans bem ajustada e uma Mercedes preta. Amanda suspirou baixinho. Não conseguia entender como ele havia se encantado por ela.
— Como consegue ficar ainda mais bonita? — Sorriu
Amanda corou. Não sem antes suspirar baixinho.
— Posso escolher o restaurante? — disse ele enquanto manobrava o carro.
— Hum... será que corro esse risco?
Ele abriu um sorriso largo.
— Confie em mim.
A conversa entre eles era espontânea, e o tempo pareceu voar até chegarem ao destino. Assim que estacionou o carro Amanda espantou-se.
— Que coincidência, Eduardo... Esse é meu restaurante preferido!
— jura? Gosta sempre dos melhores?

Ela desceu refletindo sobre as palavras dele. Aquele lugar não era um dos melhores da cidade. Para falar a verdade, ficava em um local bem escondido no bairro do Leblon.
O garçom guiou-os até uma mesa ao lado da janela. A vista era deslumbrante.
— Olha que legal! Sempre sento nessa mesa quando venho aqui. — gargalhou Amanda achando aquilo tudo o máximo.
— Não é para menos. O melhor lugar com a melhor companhia. Agora só o melhor dos vinhos para deixar a noite perfeita.
A noite fluiu, as horas passaram. Conversaram sobre publicidade, sobre a empresa, sobre o projeto, sobre o país... Eduardo parecia conhecer em detalhes sua vida, sua alma, seus medos.
— Não entendo como já não virou Diretora da Empresa. Juro.
— Foi você mesmo quem disse que sou insegura!
Ele sorriu... De uma maneira familiar. Amanda parecia conhecer aquele homem.
— Você está insegura. E por conhecer tão bem sua capacidade é que posso afirmar isso. Você deveria estar neste cargo mesmo antes do Projeto da Secretaria de Cultura.
Amanda sentiu um arrepio subrir-lhe as costas. Aquilo estava ficando realmente estranho.
— Como... Como sabe que eu estava na disputa por esse projeto?
Eduardo escondeu o sorriso. Parecia ter se assustado com a pergunta de Amanda.
— Como assim?
— Do Projeto da Secretaria de Cultura!
— Tenho acompanhado o trabalho da Empresa há algum tempo e... fiquei sabendo dessa concorrência.
— Mas como sabe que era eu quem estava a frente dele?
Eduardo deu de ombros.
— Não sei... Eu chutei. Sei lá.
Amanda ajeitou-se na cadeira, relaxando. Não sabia porque estava tão assustada com o assunto. Havia algo de diferente no rapaz à sua frente.
Eduardo chamou o garçom.
— Vamos fazer o pedido. Carne ou frango? — Olhou para a mulher sentada à sua frente com olhar preocupado.
— Carne.
— Como sempre...
Amanda fixou o olhar em Eduardo. Ela ia ficar maluca.
— Por favor, dois Filés ao molho madeira com purê de batatas.
Amanda bateu com o cardápio na mesa.
— Vai me contar o que está acontecendo?!
O garçom, ao assustar-se com a cena, agradeceu o pedido e se retirou.
Eduardo sorriu.
— Não gosta do prato? Vai entender com o tempo que sou um pouco autoritário.
— Me explica o que está acontecendo, Eduardo! Filé ao molho madeira é meu prato preferido! Quem é você?
— Calma... Foi só coincidência.
— Não! Eu conheço você... Desde a primeira vez que te vi eu soube que você não era um estranho!
— Ainda bem. Graças a isso que você me convidou para o café, lembra? — gargalhou.
— Para! O que está acontecendo aqui! Se não me disse agora, vou embora de taxi!
Eduardo viu que Amanda estava perturbada.
— Vou te explicar... Calma. — ficou serio. — Ontem estive na empresa e o Sr. João Neto me levou para uma turnê. Me contou sobre as ultimas concorrências, sobre você... Que você estava assumindo a gerência... Aliás, te elogiou muito.
Amanda continuava séria. Estava na defensiva. Ainda não sentia-se convencida.
— Então encontrei a Patrícia, sua amiga.
— Patrícia? Como ela não me falou nada sobre isso?
— O Presidente pediu sigilo sobre mim até que eu fosse formalmente apresentado. Bom... Como o Sr. João falou da sua proximidade com a Patrícia, eu conversei com ela sobre seus hábitos, sobre seu trabalho... Agora somos colegas de projeto. Eu gosto de saber com quem divido minhas horas de serviço.
— E por que Patrícia falaria do que eu gosto de comer?
— Ela não falou... quero dizer... Nós saímos para almoçar e ela sugeriu esse restaurante, que concidentemente, ela deixou escapar seu o seu preferido.
Amanda sentiu-se ridícula. Como pôde ser tão boba. O que estava pensando? Que um dos homens mais ricos da Publicidade iria sequestrá-la?
— Me desculpe, Eduardo... E não sei o que está acontecendo comigo. Acho que estou estressada com o novo cago. Não sei nem se vou conseguir mantê-lo.
Eduardo pegou as mãos de Amanda e apertou-as.
— Preste muita atenção no que vou dizer. Você tem toda a capacidade do mundo para assumir a Diretoria da empresa. Entendeu? Você não pode deixar essa sua insegurança afastá-la do que você mais quer!
Ela assuntou-se com a convicção contida nas palavras dele. Como podia saber se conhecia tão pouco de sua vida.
Ela confirmou com a cabeça, ainda tonta com o olhar do homem seguro do que falava.
Ele soltou suas mãos. Após respirar profundamente, voltou a atenção para a refeição que acabara de chegar.
Amanda comeu devagar. Queria prolongar ao máximo aquela noite que, embora parecesse estranha, proporcionava momentos cheios de magia.
— E o livro? Trouxe ele com você?
Amanda sorriu, pegou a bolsa e retirou o livro de dentro.
Os olhos de Eduardo brilharam. De certa maneira parecia estar ganhando o maior tesouro do mundo. Por alguns segundos ele titubeou com o livro nas mãos.
— Por que nunca comprou um desses antes? Tem dinheiro pra isso.
— É uma raridade. O dinheiro não compra tudo, Amanda.
Uma certa melancolia tomou conta do olhar do rapaz. Amanda podia jurar que estavam úmidos.
— Está tudo bem?
Ele assuntou-se.
— Claro! Tudo bem demais. — Passou as mãos pelo rosto. — Vamos pedir a conta?
+++

         O caminho para casa foi silencioso. A alegria do jantar se fora de maneira inexplicável. Amanda olhou para Eduardo, que dirigia concentrado na estrada, agora melancólico.
— Não vai chegar atrasado amanhã, ouviu? Vou fazer algumas alterações no projeto. O Sr. João Neto vai amar. Essa noite, de certa maneira, foi inspiradora. Culpa sua, Sr. Eduardo Freire, que me fez acreditar na capacidade de conquistar a Diretoria da Faces Marketing e Comunicação! — sorriu.
Ele continuou sério, absorto pela estrada ainda úmida pela garoa que caía. Amanda continuou a observá-lo até voltar a atenção para o caminho. O silêncio era ensurdecedor.
— Falei alguma coisa errada?... Eu... sinto muito se disse...
— Para de se desculpar, Amanda! Você não pode continuar assim se quiser chegar a Diretoria! Deixa essa insegurança boba de lado! Você não tem que se sentir assim... Seja mais enfática, coloque sua posição. Você pode! Você tem talento!
Os olhos de Amanda encheram-se de lágrimas. Sempre fora uma menina que necessitava de alguém para protege-la, que nunca sentia convicção em suas ideias.
Eduardo suspirou.
— Me desculpe. E que me dói ver você acuada por aquele bando de incompetentes no trabalho. — Esfregou o rosto. — Amanda... você consegue. Acredite.
O silêncio voltou a inundar o carro que se aproximava da casa de Amanda. Assim que estacionou, Eduardo voltou-se para ela e segurou-lhe as mãos.
— Promete que amanhã pela manhã vai respirar fundo, ir até o Presidente e dizer que só entregará o Projeto final do Transito de for para o cargo de Diretoria.
Amanda gargalhou alto. Aquilo era uma loucura. Mas o sorriso sumiu quando percebeu o olhar reprovador de Eduardo.
— Como assim? Isso não existe! Meu projeto nem é tão bom assim.
— Amanda... Esse projeto vai mudar o rumo da Faces. Vale bilhões. É um projeto federal, que vai ser espalhado pelos quatro cantos do país!
— Por isso mesmo! Você acha que eles me deixariam presidir esse projeto?
Eduardo continuou a olhá-la no fundo dos olhos.
— Você pode, Amanda. Se eu te ajudar, com pequenos ajustes, seu projeto não vai ser negado. Siga todos os passos contidos nessas anotações. Passei a tarde fazendo isso. — entregou um envelope para ela — Eu garanto que com isso ficará perfeito. Mas... a condição é que você fique na Diretoria da empresa.
— Por que se preocupa tanto comigo? — disse absorta pelo homem que parecia conhecer sua alma.
— Amanda... estou perdidamente apaixonado por você. Mas isso não importa... o que importa é que... amanhã...não vou mais voltar para a empresa.
— Como assim?? — disse Amanda assustada com tudo que conseguia absorver.
— Não posso explicar. — segurou o rosto da menina com as mãos. — Preste muita atenção. Você tem que acreditar em mim.
— Por que não vai voltar amanhã? Quando volta?
— Amanda...
— O que está acontecendo? Por que não volta. — gritou com os olhos cheios de lágrimas.
Eduardo puxou Amanda e beijou-a com uma vontade contida. O encontro dos lábios era perfeito. A energia entre eles era mágica, insaciável, ardente.
— Eu tenho que ir. — disse Eduardo enquanto apertava a mulher contra o seu peito. Parecia não querer que o mundo girasse.
— Volta quando?
— Eu ligo para você.
Um tom de despedida estava contido nas palavras do rapaz e uma tristeza profunda apertou o peito de Amanda. Mas quando ele sorriu para ela, sentiu novamente um frio percorrer-lhe a nuca. Aquele sorriso não era estranho. De onde o conhecia?
Beijaram-se novamente e o momento pareceu perdurar por horas, embora os minutos do relógio apontassem a brevidade do tempo.
— Tenho que ir. Entro em contato com você.
— Não quer me explicar o porquê? — implorou com os olhos suplicantes.
Ele balançou a cabeça.
— Eu entro em contato com você — repetiu com tom pesaroso.
 A dor e a sensação de vazio continuou mesmo após Amanda ver o carro desaparecer na esquina. Enxugou as lágrimas e olhou para o envelope com as anotações do Eduardo. Aquilo era insano. Que dia havia sido aquele? Mal acabara de se despedir e uma saudade dolorida a perturbava como nunca. Esfregou o rosto e subiu as escadas devagar até alcançar o elevador. Precisava de uma boa noite de sono. Na manhã seguinte saberia o que fazer. Inclusive, como pedir a Diretoria da Faces.




Continua...

A Verdadeira Tragédia





quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Atemporal ( Parte I)


Amanda acordou apressada naquela manhã. Precisava chegar cedo ao trabalho. A reunião havia sido marcada de última hora e atrasar-se seria a desculpa necessária para que fosse afastada do cargo recém-conquistado depois de tantas batalhas internas. Sem contar as externas. A inveja imperava em seu ambiente de trabalho e ocupar o cargo de confiança do chefe a colocava em destaque para receber críticas e boicotes da turma que convivia diariamente com ela em seu escritório.
Ainda com o pão nas mãos, desceu para a garagem. Tinha 30 minutos para chegar, e se o trânsito ajudasse, conseguiria chegar antes da equipe. Repassou a apresentação que faria, falando em voz alta dentro do carro, com a adrenalina fazendo-a esquecer de alguns detalhes.
— Calma, Amanda. Com os slides você vai se lembrar de tudo. — Apertou o estômago que a lembrava que o pão ainda repousava embrulhado sobre o banco do carro. Mas como o batom estava perfeitamente colocado em sua boca, desistiu de comer.
Assim que estacionou, desceu do carro rumo ao elevador. Olhando no relógio, viu que ainda lhe restavam 20 minutos.
Ainda agonizada com o horário, entrou no elevador e apertou o botão do décimo andar, mas quando as portas estavam quase se fechando, voltaram a se abrir. Amanda apertou os olhos. Mas que droga!. O rapaz ainda ficou parado por alguns segundos até entrar no elevador. Estampava um sorriso largo que fez Amanda corar e abaixar o rosto.
— Bom dia. — disse ele.
— Ah... bom dia — respondeu enrubescida. Sentiu-se uma criança por estar embaraçada com um simples olhar. Mas havia algo de diferente no homem ao seu lado.
— Por favor... sabe me informar onde fica a Faces Marketing e Comunicação?
Amanda o olhou com curiosidade.
— Sei. É onde trabalho... Você vai encontrar alguém?
— Na verdade vim prestar um serviço para o novo projeto da empresa.
— Que projeto?
— A campanha de marketing do novo software.
— Mas como assim... Ninguém me falou nada!
O rapaz franziu a testa.
— E... precisava?
— Não... quero dizer... Me desculpe. É que acabei de assumir o cargo da Gerência de Marketing e não fui avisada. Estranho isso. — Estendeu as mãos. — Muito prazer, me chamo Amanda Castro.
Ele estendeu as mãos e cumprimentou-a.
— Eduardo Vasconcelos.
Assim que as portas abriram, Amanda saiu na frente, não sem antes praguejar. Talvez aquela fosse a prova de que ainda não confiavam em seu trabalho. Para que contratar mais uma pessoa para o projeto? Olhou sobre os ombros e viu que Eduardo a seguia. Aquilo ia acabar atrapalhando sua promoção. Batalhara tanto para o cargo.
Assim que abriu a porta da Sala de Reuniões, a mesa ainda se encontrava vazia, como ela havia previsto. Largou os livros sobre a mesa e dirigiu-se ao computador para inserir o pen drive com sua palestra. Ainda lhe restavam 10 minutos antes da sala se assoberbar de pessoas prontas para derrubar suas convicções. Eduardo aconchegou-se em uma das cadeiras e a observava enquanto ela andava de um lado para outro, na preocupação de colocar toda a apresentação em ordem.
— Costuma ser sempre tão pontual?
— Ah? — Assustou-se ao lembrar que existia alguém na sala além dela. — Ah... sim, sempre. — Ainda olhando para o rapaz, começou a passar o texto decorado durante a madrugada. Não podia errar uma só palavra.
Ele sorriu. Havia algo nele que de certa maneira incomodava Amanda. Talvez a beleza. Eduardo era um homem de traços fortes e olhos enigmáticos.
— E charmosa, costuma também ser sempre assim?
Amanda tentou se concentrar nas anotações.
— Ah? Não entendi. — disse ainda duvidando dos seus ouvidos.
Eduardo sorriu enquanto segurava a caneta que batia levemente sobre a mesa.
— Você está de brincadeira? — disse Amanda enquanto o encarava.
— Será? — o sorriso no rosto do rapaz desapareceu dando lugar a um olhar enigmático que desconcertou Amanda. Daquele jeito ela não ia conseguir se concentrar.
Ela respirou fundo. Talvez ele estivesse ali para roubar-lhe o lugar. Só podia ser.
— Por favor, Sr. Eduardo, se não sabe, estou me concentrando para a apresentação do novo projeto que talvez desconheça a importância, portanto se não for pedir muito, gostaria que ficasse em silêncio para que eu possa me preparar. Obrigada.
Amanda virou de costas para o rapaz e tentou mais uma vez concentrar-se nas palavras que iria falar. Já nem se lembrava mais onde havia parado.
— Onde conseguiu esse livro?
Amanda suspirou ao voltar-se para Eduardo, não sem antes fazer uma expressão de desagrado.
— Fala sério! Você veio me sabotar?
A gargalhada tomou conta da sala. Eduardo parecia estar gostando do espetáculo, mas ao perceber que Amanda continuava séria, conteve-se.
— Desculpe-me. É que não consegui evitar. Você me parece tão insegura.
— Pareço o quê???
As portas abriram-se e diretores e gerentes do escritório começaram a entrar e ocupar seus assentos à mesa. O burburinho fez a conversa dissipar-se. O máximo que Amanda conseguiu fazer foi manter o olhar preso ao rapaz que ainda a observava com olhar indecifrável.
Assim que o Presidente da Faces entrou, o silêncio tomou conta do ambiente. Colocando-se extremidade da mesa, ainda de pé, saudou os presentes.
— Bom dia, senhores. Antes de mais nada, gostaria de anunciar que Amanda agora é nossa Gerente de Marketing.
Ela, ainda em frente à tela, sentiu o estômago contorcer diante dos olhares. Alguns amigáveis, mas em sua grande maioria, pode perceber a raiva contida neles. Um leve bater de palmas soou.
— Tenho mais um anúncio a fazer. O Sr. Eduardo Freire, como vocês devem saber, veio da Creative Magazine, onde foi um dos sócios proprietários e hoje é o CEO de uma das maiores revistas de softwares do país, a Soft Business.
Houve um burburinho no ambiente. Amanda sentiu o rosto ferver. Tinha agido como uma tola na frente de um dos maiores nomes da Publicidade.
— Eduardo irá no ajudar na nova campanha de marketing do nosso novo software de controle de tráfego e nós teremos a honra de contar com todo seu conhecimento e expertise.
O rapaz levantou-se e cumprimentou modestamente todos os presentes na sala, além de lançar um sorriso discreto para Amanda que o fuzilava com o olhar. Um soar de palmas preencheu o espaço que agora parecia pequeno e quente demais para Amanda.
— Muito bem. — prosseguiu o Presidente — Amanda nos preparou um esboço para a nova campanha e ela irá nos apresentar. Eduardo, gostaria que prestasse atenção e fizesse seus comentários. Vai ser um bom momento para eu ter a certeza de que coloquei Amanda no cargo correto — Deu um leve sorriso — Prossiga Amanda, por favor. — Sentou-se
Todos voltaram a atenção para a mulher estática, que por alguns segundos manteve-se em silêncio.
— Bom dia, eu... — fechou os olhos. Precisava se concentrar. Ele havia dito que era Eduardo Vasconcelos e não Eduardo Freire... Meu Deus, Eduardo Freire trabalhava com ela.
— Amanda?
Abriu os olhos. Todos a olhavam com o rosto contraído. Alguns de certa maneira sorriam, talvez apostando no seu fracasso.
— Quando falamos em tráfego, a primeira pergunta que vem à nossa mente é... — O primeiro slide surgiu — Será que vou chegar a tempo na reunião? Na Faculdade? Na escola do meu filho?...

+++

Amanda ainda aguardava o elevador quando viu o rapaz se aproximar.
— Parabéns. Confesso que fiquei surpreso.
— Obrigada. Não foi o que pareceu. Seus comentários não foram tão positivos assim e talvez custe meu pescoço.
— Eu não podia concordar em 100% com tudo que você falou. Não seria correto da minha parte e talvez... desse muito na cara.
— Como assim, “desse muito na cara”?
— O quanto eu estou encantado por você.
O silêncio tomou conta do lugar até o sinal luminoso avisar que a porta iria se abrir. Entraram em silêncio e assim permaneceram até chegar ao térreo.
— Por que não toma um café comigo? — disse Eduardo com um sorriso simpático no rosto.
— Não costumo tomar café com estranhos. — Amanda arrebitou o nariz.
— Mas... acho que não somos mais estranhos.
— Pelo que eu sei, você me disse ser o Sr. Eduardo Vasconcelos, não o Sr. “Eduardo super famoso publicitário Freire”! — apressou o passo até alcançar a saída do prédio. — Logo, não sei que você é! — Virou o corpo rumo a garagem, deixando o rapaz em pé na calçada assoberbada de pessoas que se acotovelavam apressadas com seus afazeres.
+++

Assim que entrou no carro sentiu-se ridícula. Ainda nem era hora do almoço e parecia ter vivido milhões de sensações naquela manhã que começara tão previsível. Assim que saiu da garagem observou Eduardo ainda parado em frente ao prédio da empresa. Algo nele era familiar... Não sabia dizer o que. Suspirou ainda repensando suas atitudes nada maduras.
— Vamos lá, Sr. Eduardo Freire... Um café não vai atrapalhar o meu dia que já virou um pesadelo! — disse, freando o carro em frente ao prédio.
Ele entrou rapidamente, com um sorriso aberto.
— Ainda bem que tem bom coração. Ainda não aprendi a andar pelo Rio de Janeiro. Como bom Paulista que sou, evito vir por essas bandas.
— Vou levar isso em conta na próxima vez em que resolver te dar carona.
Gargalharam e seguiram rumo à cafeteria.
+++
— Muito bem, Sr. Eduardo Vasconcelos Freire, por que não disse quem era? — virou a xícara de café para molhar os lábios. De certa maneira sentia-se desconfortável com um homem tão importante sentado à sua frente.
—Não gosto de ficar expondo quem sou. Pode soar antipático. E... não achei necessário.
— Se eu tivesse a metade do que tem, eu sairia contando para todo mundo. — sorriu.
— Eu gostei da sua apresentação e acredito que com alguns ajustes será a campanha perfeita para o produto. Sério.
Amanda enrubesceu.
— Obrigada.
Após alguns minutos de silencio, Eduardo recostou-se na cadeira.
—Onde comprou aquele livro?
Amanda franziu a testa.
— Livro? Que livro?
— Vi na mesa de reuniões um livro de capa cinza.
Amanda ainda ficou por algum tempo tentando buscar na memória a imagem de um livro. O único fato do qual se lembrava era do rosto do presidente da empresa a observando gaguejar durante a apresentação.
— Ah... sim! Um livro que comprei em um sebo. Raríssimo, diga-se de passagem. Henry Sampson... “ A História da Publicidade”. É de 1874.
— Olha... que interessante. Já leu?
— Folheei. Não ando tendo muito tempo para a leitura ultimamente. — Levou a xícara até a boca, enquanto tentava parecer confortável diante da imagem imponente sentada à sua frente.
Eduardo, ajeitou-se novamente na cadeira.
— Será que eu poderia dar uma olhada nele?
Amanda ainda duvidando da conversa, deu de ombros.
— Claro... Mas... por que se interessa tanto assim?
— É um livro raro. Quem não se interessaria.
O silêncio voltou a tomar espaço na cafeteria. Eduardo ainda mexia o café com a colher quando voltou a olhar para Amanda.
— Posso buscar?
Amanda franziu a testa novamente.
— O que?
— O livro — respondeu Eduardo um pouco irritado.
Amanda ficou boquiaberta com a ansiedade do publicitário, sempre tão seguro e confiante.
— Posso levar amanhã para o trabalho, se quiser.
— Não! — Eduardo sorriu desconcertado. — Quero dizer... Não posso buscar hoje?
Amanda sorriu. Havia alguma coisa de errado no rapaz. Talvez aquela fosse a maneira que ele havia encontrado para chama-la para sair. As pessoas andavam estranhas e os relacionamentos estava passando por mudanças que não cabiam no seu estilo de vida.
— Olha aqui, Sr. Eduardo Freire... Vamos fazer assim. Se você me pagar um jantar, vou pensar no assunto. O que acha?
Ele não sorriu. De alguma maneira seu olhar fixo desconcertou Amanda. Ela sentiu que talvez ele quisesse dizer alguma coisa que ela não compreendia e sentiu um frio percorrer-lhe a espinha até seus cabelos da nuca arrepiarem-se.
— Te pago as nove. — Disse enquanto acenava para o garçom. Amanda nem teve tempo de responder e de certa maneira, ela não conseguiu negar.


continua...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

14º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães



Promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Lazer do Rio Grande do Sul (Sedactel/RS), por meio do Instituto Estadual do Livro (IEL), em parceria com a Universidade de Passo Fundo (UPF) e a Prefeitura de Passo Fundo, o 14º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães busca também valorizar a criação literária no Brasil. 

O concurso é destinado a contistas, com obras publicadas ou não, que apresentem textos inéditos, não publicados inclusive na internet, e as inscrições podem ser feitas até o dia 10 de julho por meio da entrega de originais no local de inscrição ou por correio. Não serão aceitas inscrições por e-mail. Cada participante deverá apresentar dois contos. 


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Gran Finale



Se conheceram assim... um dia barulhento e totalmente improvável. Seus olhos se cruzaram em meio a tantos olhares, misturados à multidão acotovelada no espaço reduzido. Foi onde tudo começou. Ele era um enigma e como tudo aquilo que é mágico, surgia inesperadamente, de supetão, mesclado aos dias corridos. E como o coelho que sai da cartola, sem avisar, alegrava os dias dela quando  levava uma garrafa de vinho para embriagar a quarta-feira careta e sem graça. Sem regras, sem cobrança. Era tudo de mais que ela precisava diante da vida quadrada que levava. Gargalhadas gostosas, filmes distintos, beijos ardentes perdidos nos ponteiros da madrugada. E aquele relógio que sempre surpreendia começou a atrasar. O padrão era o mesmo, ela sabia, mas o que sobrepujava começou a faltar. Já não bastava mais o repentino aparecimento no dia qualquer da semana. Os dias começaram a ter 24 horas e ela jurava poder contar cada segundo deles. O elemento surpresa que brindava o clímax tornou-se um incômodo que agora a perturbava no cotidiano acelerado do dia a dia. A imagem daquele homem deixou de ser um sorriso no canto da boca. Agora era a maquiagem borrada, feito o palhaço do circo que agora tomava o lugar do mágico no picadeiro. Ela culpava a sociedade, a idade,  a cidade, os hormônios... em vão. Motivada por aquele medo que agora preenchia os espaços antes embriagados, ela resolveu se afastar. E com o distanciamento percebeu que nunca fizera falta. Sem sentimento, sem reciprocidade. Era tudo o que ela menos precisava diante da vida revolta que levava. E terminaram assim... Seus olhos não se cruzaram nem um momento sequer em meio ao turbilhão de duvidas e perguntas esquecidas em um canto espremido da cabeça. E em uma esquina que antes fora palco de um dos encontros mais lindos que ela podia lembrar, a cortina fechou. Só o palhaço ficou por mais alguns dias, na vã esperança de dar um sorriso sequer. O Gran Finale nunca veio... E a mágica terminou sem aplausos.

sábado, 1 de março de 2014

Saudade


Hoje eu perdi o sono. Nessas horas em que a cabeça, além de doer, não para de pensar, é hora de levantar da cama, tomar um remédio qualquer e fazer outras coisas além de ficar olhando para o teto do meu quarto, escutando Debussy. Será que perdi o sono porque fui analisar a perfeição da música? É como se tudo flutuasse. Quando tudo flutua assim, o tempo se perde, e a saudade toma conta do lugar...

Saudade é um sentimento dolorido.

Sinto saudade de tanta coisa na minha vida: 

Saudade do meu tempo de criança, quando eu brincava sem hora para acabar, ou se acabava, era porque o corpo não aguentava mais. Patins, bola, boneca, video-game.

Sinto saudade do tempo em que a escola era um mistério, cheio de desafios intransponíveis, colegas que fundavam associações "secretas" só com o objetivo de juntar as pessoas para...para nada mesmo.

Saudade dos lugares que passei, esses lugares que nem lembro, mas quando passo de novo por eles, vem uma sensação gostosa e diferente. Saudade dos beijos, na escada, no meio do show, no meio da chuva, no meio do nada... Saudade da saudade gostosa do amor. Saudade do meu grande amor.

Sinto saudade daquela pessoa que apareceu e foi embora sem deixar o mapa. Saudade dos amigos, desses que você encontra e se pergunta porque não ligou mais vezes. Dos amigos que você nem lembra mais, aqueles das fotos que se perderam no tempo.

 Saudade do cachorrinho que ficou.

Saudade do primeiro namoro, das cartas que recebi, das declarações de amor que caíram do céu em algum momento da vida, dos presentes inesperados e esperados, das festas de aniversário, dos natais, das férias com os primos, da infância, da adolescência, da cabeça cheia de sonhos.

Quem não tem saudade? Saudade é uma constante na vida de todos nós. São memórias rápidas que vem e vão numa velocidade incrível, como a leitura que acaba perdendo a página certa por causa do vento.


Saudade é sentir prazer em lembrar das coisas que não voltarão nunca mais, pelo simples fato de que o tempo só anda em uma direção, nem sempre compreendida e muitas vezes limitadora e impiedosa. Impiedoso como esse frio que também insiste em me dizer que levantar da cama talvez não tenha sido a melhor das ideias. Afinal de contas, existe coisa melhor do que ter na cabeça, além da dor que já está passando, lembranças lindas para sentir saudade? 


Um lindo texto diz assim:

"Sinto saudade dos amigos que nunca mais vi, das pessoas com quem não 
mais falei ou cruzei.


Sinto saudade do presente, que não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando no futuro.


Sinto saudade do futuro, que se idealizado, provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser.


Sinto saudade de quem me deixou e de quem eu deixei, de quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer. 


Sinto saudade dos que se foram e de quem não me despedi direito; daqueles que não tiveram como me dizer adeus; de gente que passou na calçada contrária da minha vida  e que só enxerguei de vislumbre.


Sinto saudade do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava totalmente, como só os cães são capazes de fazer. Saudade dos livros que li e que me fizeram viajar,  dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, das coisas que vivi e das que deixei passar sem curtir na totalidade.


Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que, não sei onde, para resgatar alguma coisa  que nem sei o que é e nem onde perdi... 

Saudade é a prova inequívoca de que somos sensíveis,  de que amamos muito o que tivemos e lamentamos as coisas boas  que perdemos ao longo da nossa existência. " 


Existência essa que não volta, que não dá uma segunda chance e que se não for bem vivida só vai deixar na lembrança, uma sensação de vazio, como se fosse um pedaço quebrado dentro de nós. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Resenha "O Portal" no Blog da Séfora Silva




Mais um resenha carinhosa da queridíssima Séfora. Enjoy it!
"A autora tomou o cuidado de amarrar todos os pontos dos mistérios para deixar tudo bem claro, e deixar solta somente a ponta que dará inicio ao próximo livro,e o bom de tudo é que o romance pelo qual eu torci deu certo, me fazendo perder o folego e me deixando com uma ressaca literária DAQUELAS, por isso demorei a fazer a resenha."
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