Não era para ser. Era muito leve. Tão leve que voou na
primeira esquina. Não suportou nem mesmo a brisa tênue da manhã que sobrou da tempestade. Bastou o sol clarear a fantasia para a realidade empurrar
a vida de volta ao trilho, essa locomotiva pesada que carrega histórias nem
sempre tão frágeis. Não foi dessa vez que a faísca formou a chama que arde.
Ardeu sim, mas era débil, fugaz, apesar de raro. Nem toda a sintonia do mundo
pode ajudar. E mais uma memória não foi capaz de se formar para perpetuar o que
de fato faria a diferença na vida dos dois. Nem dele, nem dela. Ficou lá, no
meio da fotografia que um dia se apaga, sem peso, sem tudo o que poderia ter
sido. Se a exigência era leveza, foi tudo o que restou. Um conceito vago no
meio do oceano de possibilidades, negadas pelo medo, pela dor ou pelo peso que
nunca teve. No fim das contas, o que era para ser apenas leve, a vida levou.
segunda-feira, 5 de março de 2018
sexta-feira, 2 de março de 2018
Atemporal ( Parte II)
Eduardo apareceu em sua porta as nove
horas em ponto. Vestido com um blazer azul marinho, uma calça jeans bem
ajustada e uma Mercedes preta. Amanda suspirou baixinho. Não conseguia entender
como ele havia se encantado por ela.
— Como consegue ficar ainda mais
bonita? — Sorriu
Amanda corou. Não sem antes suspirar
baixinho.
— Posso escolher o restaurante? — disse
ele enquanto manobrava o carro.
— Hum... será que corro esse risco?
Ele abriu um sorriso largo.
— Confie em mim.
A conversa entre eles era espontânea, e
o tempo pareceu voar até chegarem ao destino. Assim que estacionou o carro
Amanda espantou-se.
— Que coincidência, Eduardo... Esse é
meu restaurante preferido!
—
jura? Gosta sempre dos melhores?
Ela
desceu refletindo sobre as palavras dele. Aquele lugar não era um dos melhores
da cidade. Para falar a verdade, ficava em um local bem escondido no bairro do
Leblon.
O
garçom guiou-os até uma mesa ao lado da janela. A vista era deslumbrante.
—
Olha que legal! Sempre sento nessa mesa quando venho aqui. — gargalhou Amanda
achando aquilo tudo o máximo.
—
Não é para menos. O melhor lugar com a melhor companhia. Agora só o melhor dos
vinhos para deixar a noite perfeita.
A
noite fluiu, as horas passaram. Conversaram sobre publicidade, sobre a empresa,
sobre o projeto, sobre o país... Eduardo parecia conhecer em detalhes sua vida,
sua alma, seus medos.
—
Não entendo como já não virou Diretora da Empresa. Juro.
—
Foi você mesmo quem disse que sou insegura!
Ele
sorriu... De uma maneira familiar. Amanda parecia conhecer aquele homem.
—
Você está insegura. E por conhecer tão bem sua capacidade é que posso afirmar
isso. Você deveria estar neste cargo mesmo antes do Projeto da Secretaria de
Cultura.
Amanda
sentiu um arrepio subrir-lhe as costas. Aquilo estava ficando realmente
estranho.
—
Como... Como sabe que eu estava na disputa por esse projeto?
Eduardo
escondeu o sorriso. Parecia ter se assustado com a pergunta de Amanda.
—
Como assim?
—
Do Projeto da Secretaria de Cultura!
—
Tenho acompanhado o trabalho da Empresa há algum tempo e... fiquei sabendo
dessa concorrência.
—
Mas como sabe que era eu quem estava a frente dele?
Eduardo
deu de ombros.
—
Não sei... Eu chutei. Sei lá.
Amanda
ajeitou-se na cadeira, relaxando. Não sabia porque estava tão assustada com o
assunto. Havia algo de diferente no rapaz à sua frente.
Eduardo
chamou o garçom.
—
Vamos fazer o pedido. Carne ou frango? — Olhou para a mulher sentada à sua
frente com olhar preocupado.
—
Carne.
—
Como sempre...
Amanda
fixou o olhar em Eduardo. Ela ia ficar maluca.
—
Por favor, dois Filés ao molho madeira com purê de batatas.
Amanda
bateu com o cardápio na mesa.
—
Vai me contar o que está acontecendo?!
O
garçom, ao assustar-se com a cena, agradeceu o pedido e se retirou.
Eduardo
sorriu.
—
Não gosta do prato? Vai entender com o tempo que sou um pouco autoritário.
—
Me explica o que está acontecendo, Eduardo! Filé ao molho madeira é meu prato
preferido! Quem é você?
—
Calma... Foi só coincidência.
—
Não! Eu conheço você... Desde a primeira vez que te vi eu soube que você não
era um estranho!
—
Ainda bem. Graças a isso que você me convidou para o café, lembra? — gargalhou.
—
Para! O que está acontecendo aqui! Se não me disse agora, vou embora de taxi!
Eduardo
viu que Amanda estava perturbada.
—
Vou te explicar... Calma. — ficou serio. — Ontem estive na empresa e o Sr. João
Neto me levou para uma turnê. Me contou sobre as ultimas concorrências, sobre
você... Que você estava assumindo a gerência... Aliás, te elogiou muito.
Amanda
continuava séria. Estava na defensiva. Ainda não sentia-se convencida.
—
Então encontrei a Patrícia, sua amiga.
—
Patrícia? Como ela não me falou nada sobre isso?
—
O Presidente pediu sigilo sobre mim até que eu fosse formalmente apresentado.
Bom... Como o Sr. João falou da sua proximidade com a Patrícia, eu conversei
com ela sobre seus hábitos, sobre seu trabalho... Agora somos colegas de
projeto. Eu gosto de saber com quem divido minhas horas de serviço.
—
E por que Patrícia falaria do que eu gosto de comer?
—
Ela não falou... quero dizer... Nós saímos para almoçar e ela sugeriu esse
restaurante, que concidentemente, ela deixou escapar seu o seu preferido.
Amanda
sentiu-se ridícula. Como pôde ser tão boba. O que estava pensando? Que um dos
homens mais ricos da Publicidade iria sequestrá-la?
—
Me desculpe, Eduardo... E não sei o que está acontecendo comigo. Acho que estou
estressada com o novo cago. Não sei nem se vou conseguir mantê-lo.
Eduardo
pegou as mãos de Amanda e apertou-as.
—
Preste muita atenção no que vou dizer. Você tem toda a capacidade do mundo para
assumir a Diretoria da empresa. Entendeu? Você não pode deixar essa sua
insegurança afastá-la do que você mais quer!
Ela
assuntou-se com a convicção contida nas palavras dele. Como podia saber se
conhecia tão pouco de sua vida.
Ela
confirmou com a cabeça, ainda tonta com o olhar do homem seguro do que falava.
Ele
soltou suas mãos. Após respirar profundamente, voltou a atenção para a refeição
que acabara de chegar.
Amanda
comeu devagar. Queria prolongar ao máximo aquela noite que, embora parecesse
estranha, proporcionava momentos cheios de magia.
—
E o livro? Trouxe ele com você?
Amanda
sorriu, pegou a bolsa e retirou o livro de dentro.
Os
olhos de Eduardo brilharam. De certa maneira parecia estar ganhando o maior
tesouro do mundo. Por alguns segundos ele titubeou com o livro nas mãos.
—
Por que nunca comprou um desses antes? Tem dinheiro pra isso.
—
É uma raridade. O dinheiro não compra tudo, Amanda.
Uma
certa melancolia tomou conta do olhar do rapaz. Amanda podia jurar que estavam
úmidos.
—
Está tudo bem?
Ele
assuntou-se.
—
Claro! Tudo bem demais. — Passou as mãos pelo rosto. — Vamos pedir a conta?
+++
O caminho para casa foi silencioso. A
alegria do jantar se fora de maneira inexplicável. Amanda olhou para Eduardo,
que dirigia concentrado na estrada, agora melancólico.
— Não vai chegar atrasado amanhã,
ouviu? Vou fazer algumas alterações no projeto. O Sr. João Neto vai amar. Essa
noite, de certa maneira, foi inspiradora. Culpa sua, Sr. Eduardo Freire, que me
fez acreditar na capacidade de conquistar a Diretoria da Faces Marketing e
Comunicação! — sorriu.
Ele continuou sério, absorto pela
estrada ainda úmida pela garoa que caía. Amanda continuou a observá-lo até
voltar a atenção para o caminho. O silêncio era ensurdecedor.
— Falei alguma coisa errada?... Eu...
sinto muito se disse...
— Para de se desculpar, Amanda! Você
não pode continuar assim se quiser chegar a Diretoria! Deixa essa insegurança
boba de lado! Você não tem que se sentir assim... Seja mais enfática, coloque
sua posição. Você pode! Você tem talento!
Os olhos de Amanda encheram-se de
lágrimas. Sempre fora uma menina que necessitava de alguém para protege-la, que
nunca sentia convicção em suas ideias.
Eduardo suspirou.
— Me desculpe. E que me dói ver você
acuada por aquele bando de incompetentes no trabalho. — Esfregou o rosto. — Amanda...
você consegue. Acredite.
O silêncio voltou a inundar o carro que
se aproximava da casa de Amanda. Assim que estacionou, Eduardo voltou-se para
ela e segurou-lhe as mãos.
— Promete que amanhã pela manhã vai
respirar fundo, ir até o Presidente e dizer que só entregará o Projeto final do
Transito de for para o cargo de Diretoria.
Amanda gargalhou alto. Aquilo era uma
loucura. Mas o sorriso sumiu quando percebeu o olhar reprovador de Eduardo.
— Como assim? Isso não existe! Meu
projeto nem é tão bom assim.
— Amanda... Esse projeto vai mudar o
rumo da Faces. Vale bilhões. É um projeto federal, que vai ser espalhado pelos
quatro cantos do país!
— Por isso mesmo! Você acha que eles me
deixariam presidir esse projeto?
Eduardo continuou a olhá-la no fundo
dos olhos.
— Você pode, Amanda. Se eu te ajudar,
com pequenos ajustes, seu projeto não vai ser negado. Siga todos os passos
contidos nessas anotações. Passei a tarde fazendo isso. — entregou um envelope
para ela — Eu garanto que com isso ficará perfeito. Mas... a condição é que
você fique na Diretoria da empresa.
— Por que se preocupa tanto comigo? —
disse absorta pelo homem que parecia conhecer sua alma.
— Amanda... estou perdidamente
apaixonado por você. Mas isso não importa... o que importa é que... amanhã...não
vou mais voltar para a empresa.
— Como assim?? — disse Amanda assustada
com tudo que conseguia absorver.
— Não posso explicar. — segurou o rosto
da menina com as mãos. — Preste muita atenção. Você tem que acreditar em mim.
— Por que não vai voltar amanhã? Quando
volta?
— Amanda...
— O que está acontecendo? Por que não
volta. — gritou com os olhos cheios de lágrimas.
Eduardo puxou Amanda e beijou-a com uma
vontade contida. O encontro dos lábios era perfeito. A energia entre eles era
mágica, insaciável, ardente.
— Eu tenho que ir. — disse Eduardo
enquanto apertava a mulher contra o seu peito. Parecia não querer que o mundo
girasse.
— Volta quando?
— Eu ligo para você.
Um tom de despedida estava contido nas
palavras do rapaz e uma tristeza profunda apertou o peito de Amanda. Mas quando
ele sorriu para ela, sentiu novamente um frio percorrer-lhe a nuca. Aquele
sorriso não era estranho. De onde o conhecia?
Beijaram-se novamente e o momento
pareceu perdurar por horas, embora os minutos do relógio apontassem a brevidade
do tempo.
— Tenho que ir. Entro em contato com
você.
— Não quer me explicar o porquê? —
implorou com os olhos suplicantes.
Ele balançou a cabeça.
— Eu entro em contato com você —
repetiu com tom pesaroso.
A
dor e a sensação de vazio continuou mesmo após Amanda ver o carro desaparecer
na esquina. Enxugou as lágrimas e olhou para o envelope com as anotações do
Eduardo. Aquilo era insano. Que dia havia sido aquele? Mal acabara de se
despedir e uma saudade dolorida a perturbava como nunca. Esfregou o rosto e
subiu as escadas devagar até alcançar o elevador. Precisava de uma boa noite de
sono. Na manhã seguinte saberia o que fazer. Inclusive, como pedir a Diretoria
da Faces.
Continua...
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
Atemporal ( Parte I)
Amanda
acordou apressada naquela manhã. Precisava chegar cedo ao trabalho. A reunião
havia sido marcada de última hora e atrasar-se seria a desculpa necessária para
que fosse afastada do cargo recém-conquistado depois de tantas batalhas
internas. Sem contar as externas. A inveja imperava em seu ambiente de trabalho
e ocupar o cargo de confiança do chefe a colocava em destaque para receber
críticas e boicotes da turma que convivia diariamente com ela em seu
escritório.
Ainda
com o pão nas mãos, desceu para a garagem. Tinha 30 minutos para chegar, e se o
trânsito ajudasse, conseguiria chegar antes da equipe. Repassou a apresentação
que faria, falando em voz alta dentro do carro, com a adrenalina fazendo-a
esquecer de alguns detalhes.
—
Calma, Amanda. Com os slides você vai se lembrar de tudo. — Apertou o estômago
que a lembrava que o pão ainda repousava embrulhado sobre o banco do carro. Mas
como o batom estava perfeitamente colocado em sua boca, desistiu de comer.
Assim
que estacionou, desceu do carro rumo ao elevador. Olhando no relógio, viu que
ainda lhe restavam 20 minutos.
Ainda
agonizada com o horário, entrou no elevador e apertou o botão do décimo andar,
mas quando as portas estavam quase se fechando, voltaram a se abrir. Amanda
apertou os olhos. Mas que droga!. O
rapaz ainda ficou parado por alguns segundos até entrar no elevador. Estampava
um sorriso largo que fez Amanda corar e abaixar o rosto.
—
Bom dia. — disse ele.
—
Ah... bom dia — respondeu enrubescida. Sentiu-se uma criança por estar
embaraçada com um simples olhar. Mas havia algo de diferente no homem ao seu
lado.
—
Por favor... sabe me informar onde fica a Faces Marketing e Comunicação?
Amanda
o olhou com curiosidade.
—
Sei. É onde trabalho... Você vai encontrar alguém?
—
Na verdade vim prestar um serviço para o novo projeto da empresa.
—
Que projeto?
—
A campanha de marketing do novo software.
—
Mas como assim... Ninguém me falou nada!
O
rapaz franziu a testa.
—
E... precisava?
—
Não... quero dizer... Me desculpe. É que acabei de assumir o cargo da Gerência
de Marketing e não fui avisada. Estranho isso. — Estendeu as mãos. — Muito
prazer, me chamo Amanda Castro.
Ele
estendeu as mãos e cumprimentou-a.
—
Eduardo Vasconcelos.
Assim
que as portas abriram, Amanda saiu na frente, não sem antes praguejar. Talvez
aquela fosse a prova de que ainda não confiavam em seu trabalho. Para que contratar mais uma pessoa para o
projeto? Olhou sobre os ombros e viu que Eduardo a seguia. Aquilo ia acabar
atrapalhando sua promoção. Batalhara tanto para o cargo.
Assim
que abriu a porta da Sala de Reuniões, a mesa ainda se encontrava vazia, como
ela havia previsto. Largou os livros sobre a mesa e dirigiu-se ao computador
para inserir o pen drive com sua palestra. Ainda lhe restavam 10 minutos antes
da sala se assoberbar de pessoas prontas para derrubar suas convicções. Eduardo
aconchegou-se em uma das cadeiras e a observava enquanto ela andava de um lado
para outro, na preocupação de colocar toda a apresentação em ordem.
—
Costuma ser sempre tão pontual?
—
Ah? — Assustou-se ao lembrar que existia alguém na sala além dela. — Ah... sim,
sempre. — Ainda olhando para o rapaz, começou a passar o texto decorado durante
a madrugada. Não podia errar uma só palavra.
Ele
sorriu. Havia algo nele que de certa maneira incomodava Amanda. Talvez a
beleza. Eduardo era um homem de traços fortes e olhos enigmáticos.
—
E charmosa, costuma também ser sempre assim?
Amanda
tentou se concentrar nas anotações.
—
Ah? Não entendi. — disse ainda duvidando dos seus ouvidos.
Eduardo
sorriu enquanto segurava a caneta que batia levemente sobre a mesa.
—
Você está de brincadeira? — disse Amanda enquanto o encarava.
—
Será? — o sorriso no rosto do rapaz desapareceu dando lugar a um olhar enigmático
que desconcertou Amanda. Daquele jeito ela não ia conseguir se concentrar.
Ela
respirou fundo. Talvez ele estivesse ali para roubar-lhe o lugar. Só podia ser.
—
Por favor, Sr. Eduardo, se não sabe, estou me concentrando para a apresentação do
novo projeto que talvez desconheça a importância, portanto se não for pedir
muito, gostaria que ficasse em silêncio para que eu possa me preparar.
Obrigada.
Amanda
virou de costas para o rapaz e tentou mais uma vez concentrar-se nas palavras
que iria falar. Já nem se lembrava mais onde havia parado.
—
Onde conseguiu esse livro?
Amanda
suspirou ao voltar-se para Eduardo, não sem antes fazer uma expressão de
desagrado.
—
Fala sério! Você veio me sabotar?
A
gargalhada tomou conta da sala. Eduardo parecia estar gostando do espetáculo,
mas ao perceber que Amanda continuava séria, conteve-se.
—
Desculpe-me. É que não consegui evitar. Você me parece tão insegura.
—
Pareço o quê???
As
portas abriram-se e diretores e gerentes do escritório começaram a entrar e
ocupar seus assentos à mesa. O burburinho fez a conversa dissipar-se. O máximo
que Amanda conseguiu fazer foi manter o olhar preso ao rapaz que ainda a
observava com olhar indecifrável.
Assim
que o Presidente da Faces entrou, o silêncio tomou conta do ambiente. Colocando-se
extremidade da mesa, ainda de pé, saudou os presentes.
—
Bom dia, senhores. Antes de mais nada, gostaria de anunciar que Amanda agora é
nossa Gerente de Marketing.
Ela,
ainda em frente à tela, sentiu o estômago contorcer diante dos olhares. Alguns amigáveis,
mas em sua grande maioria, pode perceber a raiva contida neles. Um leve bater
de palmas soou.
—
Tenho mais um anúncio a fazer. O Sr. Eduardo Freire, como vocês devem saber,
veio da Creative Magazine, onde foi um dos sócios proprietários e hoje é o CEO de
uma das maiores revistas de softwares do país, a Soft Business.
Houve
um burburinho no ambiente. Amanda sentiu o rosto ferver. Tinha agido como uma
tola na frente de um dos maiores nomes da Publicidade.
—
Eduardo irá no ajudar na nova campanha de marketing do nosso novo software de
controle de tráfego e nós teremos a honra de contar com todo seu conhecimento e
expertise.
O
rapaz levantou-se e cumprimentou modestamente todos os presentes na sala, além
de lançar um sorriso discreto para Amanda que o fuzilava com o olhar. Um soar
de palmas preencheu o espaço que agora parecia pequeno e quente demais para
Amanda.
—
Muito bem. — prosseguiu o Presidente — Amanda nos preparou um esboço para a nova
campanha e ela irá nos apresentar. Eduardo, gostaria que prestasse atenção e
fizesse seus comentários. Vai ser um bom momento para eu ter a certeza de que
coloquei Amanda no cargo correto — Deu um leve sorriso — Prossiga Amanda, por
favor. — Sentou-se
Todos
voltaram a atenção para a mulher estática, que por alguns segundos manteve-se
em silêncio.
—
Bom dia, eu... — fechou os olhos. Precisava se concentrar. Ele havia dito que era Eduardo Vasconcelos e não Eduardo Freire... Meu
Deus, Eduardo Freire trabalhava com ela.
—
Amanda?
Abriu
os olhos. Todos a olhavam com o rosto contraído. Alguns de certa maneira
sorriam, talvez apostando no seu fracasso.
—
Quando falamos em tráfego, a primeira pergunta que vem à nossa mente é... — O
primeiro slide surgiu — Será que vou chegar a tempo na reunião? Na Faculdade?
Na escola do meu filho?...
+++
Amanda
ainda aguardava o elevador quando viu o rapaz se aproximar.
—
Parabéns. Confesso que fiquei surpreso.
—
Obrigada. Não foi o que pareceu. Seus comentários não foram tão positivos assim
e talvez custe meu pescoço.
—
Eu não podia concordar em 100% com tudo que você falou. Não seria correto da
minha parte e talvez... desse muito na cara.
—
Como assim, “desse muito na cara”?
—
O quanto eu estou encantado por você.
O
silêncio tomou conta do lugar até o sinal luminoso avisar que a porta iria se
abrir. Entraram em silêncio e assim permaneceram até chegar ao térreo.
— Por que não toma um café comigo? — disse
Eduardo com um sorriso simpático no rosto.
— Não costumo tomar café com estranhos.
— Amanda arrebitou o nariz.
— Mas... acho que não somos mais
estranhos.
— Pelo que eu sei, você me disse ser o
Sr. Eduardo Vasconcelos, não o Sr. “Eduardo super famoso publicitário Freire”!
— apressou o passo até alcançar a saída do prédio. — Logo, não sei que você é!
— Virou o corpo rumo a garagem, deixando o rapaz em pé na calçada assoberbada
de pessoas que se acotovelavam apressadas com seus afazeres.
+++
Assim que entrou no carro sentiu-se
ridícula. Ainda nem era hora do almoço e parecia ter vivido milhões de
sensações naquela manhã que começara tão previsível. Assim que saiu da garagem
observou Eduardo ainda parado em frente ao prédio da empresa. Algo nele era
familiar... Não sabia dizer o que. Suspirou ainda repensando suas atitudes nada
maduras.
— Vamos lá, Sr. Eduardo Freire... Um
café não vai atrapalhar o meu dia que já virou um pesadelo! — disse, freando o
carro em frente ao prédio.
Ele entrou rapidamente, com um sorriso
aberto.
— Ainda bem que tem bom coração. Ainda
não aprendi a andar pelo Rio de Janeiro. Como bom Paulista que sou, evito vir
por essas bandas.
— Vou levar isso em conta na próxima
vez em que resolver te dar carona.
Gargalharam e seguiram rumo à
cafeteria.
+++
— Muito bem, Sr. Eduardo Vasconcelos
Freire, por que não disse quem era? — virou a xícara de café para molhar os
lábios. De certa maneira sentia-se desconfortável com um homem tão importante
sentado à sua frente.
—Não gosto de ficar expondo quem sou.
Pode soar antipático. E... não achei necessário.
— Se eu tivesse a metade do que tem, eu
sairia contando para todo mundo. — sorriu.
— Eu gostei da sua apresentação e
acredito que com alguns ajustes será a campanha perfeita para o produto. Sério.
Amanda enrubesceu.
— Obrigada.
Após alguns minutos de silencio,
Eduardo recostou-se na cadeira.
—Onde comprou aquele livro?
Amanda franziu a testa.
— Livro? Que livro?
— Vi na mesa de reuniões um livro de
capa cinza.
Amanda ainda ficou por algum tempo
tentando buscar na memória a imagem de um livro. O único fato do qual se
lembrava era do rosto do presidente da empresa a observando gaguejar durante a
apresentação.
— Ah... sim! Um livro que comprei em um
sebo. Raríssimo, diga-se de passagem. Henry Sampson... “ A História da
Publicidade”. É de 1874.
— Olha... que interessante. Já leu?
— Folheei. Não ando tendo muito tempo
para a leitura ultimamente. — Levou a xícara até a boca, enquanto tentava
parecer confortável diante da imagem imponente sentada à sua frente.
Eduardo, ajeitou-se novamente na
cadeira.
— Será que eu poderia dar uma olhada
nele?
Amanda ainda duvidando da conversa, deu
de ombros.
— Claro... Mas... por que se interessa
tanto assim?
— É um livro raro. Quem não se
interessaria.
O silêncio voltou a tomar espaço na
cafeteria. Eduardo ainda mexia o café com a colher quando voltou a olhar para
Amanda.
— Posso buscar?
Amanda franziu a testa novamente.
— O que?
— O livro — respondeu Eduardo um pouco
irritado.
Amanda ficou boquiaberta com a
ansiedade do publicitário, sempre tão seguro e confiante.
— Posso levar amanhã para o trabalho,
se quiser.
— Não! — Eduardo sorriu desconcertado.
— Quero dizer... Não posso buscar hoje?
Amanda sorriu. Havia alguma coisa de
errado no rapaz. Talvez aquela fosse a maneira que ele havia encontrado para
chama-la para sair. As pessoas andavam estranhas e os relacionamentos estava
passando por mudanças que não cabiam no seu estilo de vida.
— Olha aqui, Sr. Eduardo Freire...
Vamos fazer assim. Se você me pagar um jantar, vou pensar no assunto. O que
acha?
Ele não sorriu. De alguma maneira seu
olhar fixo desconcertou Amanda. Ela sentiu que talvez ele quisesse dizer alguma
coisa que ela não compreendia e sentiu um frio percorrer-lhe a espinha até seus
cabelos da nuca arrepiarem-se.
— Te pago as nove. — Disse enquanto
acenava para o garçom. Amanda nem teve tempo de responder e de certa maneira,
ela não conseguiu negar.
continua...
segunda-feira, 8 de maio de 2017
14º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães
Promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e
Lazer do Rio Grande do Sul (Sedactel/RS), por meio do Instituto Estadual do
Livro (IEL), em parceria com a Universidade de Passo Fundo (UPF) e a Prefeitura
de Passo Fundo, o 14º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães busca também
valorizar a criação literária no Brasil.
O concurso é destinado a contistas, com obras publicadas
ou não, que apresentem textos inéditos, não publicados inclusive na internet, e
as inscrições podem ser feitas até o dia 10 de julho por meio da entrega de
originais no local de inscrição ou por correio. Não serão aceitas inscrições
por e-mail. Cada participante deverá apresentar dois contos.
quinta-feira, 27 de abril de 2017
Gran Finale
Se conheceram assim... um dia barulhento e totalmente improvável. Seus
olhos se cruzaram em meio a tantos olhares, misturados à multidão acotovelada
no espaço reduzido. Foi onde tudo começou. Ele era um enigma e como tudo aquilo
que é mágico, surgia inesperadamente, de supetão, mesclado aos dias corridos. E
como o coelho que sai da cartola, sem avisar, alegrava os dias dela quando
levava uma garrafa de vinho para embriagar a quarta-feira careta e sem
graça. Sem regras, sem cobrança. Era tudo de mais que ela precisava diante da
vida quadrada que levava. Gargalhadas gostosas, filmes distintos, beijos
ardentes perdidos nos ponteiros da madrugada. E aquele relógio que sempre
surpreendia começou a atrasar. O padrão era o mesmo, ela sabia, mas o que
sobrepujava começou a faltar. Já não bastava mais o repentino aparecimento no
dia qualquer da semana. Os dias começaram a ter 24 horas e ela jurava poder
contar cada segundo deles. O elemento surpresa que brindava o clímax tornou-se
um incômodo que agora a perturbava no cotidiano acelerado do dia a dia. A
imagem daquele homem deixou de ser um sorriso no canto da boca. Agora era a
maquiagem borrada, feito o palhaço do circo que agora tomava o lugar do mágico
no picadeiro. Ela culpava a sociedade, a idade, a cidade, os hormônios...
em vão. Motivada por aquele medo que agora preenchia os espaços antes
embriagados, ela resolveu se afastar. E com o distanciamento percebeu que nunca
fizera falta. Sem sentimento, sem reciprocidade. Era tudo o que ela menos
precisava diante da vida revolta que levava. E terminaram assim... Seus olhos
não se cruzaram nem um momento sequer em meio ao turbilhão de duvidas e
perguntas esquecidas em um canto espremido da cabeça. E em uma esquina que
antes fora palco de um dos encontros mais lindos que ela podia lembrar, a
cortina fechou. Só o palhaço ficou por mais alguns dias, na vã esperança de dar
um sorriso sequer. O Gran Finale nunca veio... E a mágica
terminou sem aplausos.
sábado, 1 de março de 2014
Saudade
Hoje eu perdi o sono. Nessas
horas em que a cabeça, além de doer, não para de pensar, é hora de levantar da
cama, tomar um remédio qualquer e fazer outras coisas além de ficar olhando
para o teto do meu quarto, escutando Debussy. Será que perdi o sono porque fui
analisar a perfeição da música? É como se tudo flutuasse. Quando tudo flutua
assim, o tempo se perde, e a saudade toma conta do lugar...
Saudade é um sentimento
dolorido.
Sinto saudade de tanta coisa na minha
vida:
Saudade do meu tempo de criança,
quando eu brincava sem hora para acabar, ou se acabava, era porque o corpo não
aguentava mais. Patins, bola, boneca, video-game.
Sinto saudade do tempo em que a
escola era um mistério, cheio de desafios intransponíveis, colegas que fundavam
associações "secretas" só com o objetivo de juntar as pessoas
para...para nada mesmo.
Saudade dos lugares que
passei, esses lugares que nem lembro, mas quando passo de novo por eles, vem
uma sensação gostosa e diferente. Saudade dos beijos, na escada, no meio do
show, no meio da chuva, no meio do nada... Saudade da saudade gostosa do amor.
Saudade do meu grande amor.
Sinto saudade daquela pessoa que
apareceu e foi embora sem deixar o mapa. Saudade dos amigos, desses que você
encontra e se pergunta porque não ligou mais vezes. Dos amigos que você nem
lembra mais, aqueles das fotos que se perderam no tempo.
Saudade do cachorrinho que ficou.
Saudade do primeiro namoro, das
cartas que recebi, das declarações de amor que caíram do céu em algum momento
da vida, dos presentes inesperados e esperados, das festas de aniversário, dos
natais, das férias com os primos, da infância, da adolescência, da cabeça cheia
de sonhos.
Quem não tem saudade? Saudade é uma constante na
vida de todos nós. São memórias rápidas que vem e vão numa velocidade incrível,
como a leitura que acaba perdendo a página certa por causa do vento.
Saudade é sentir prazer em
lembrar das coisas que não voltarão nunca mais, pelo simples fato de que o
tempo só anda em uma direção, nem sempre compreendida e muitas vezes limitadora
e impiedosa. Impiedoso como esse frio que também insiste em me dizer que
levantar da cama talvez não tenha sido a melhor das ideias. Afinal de contas,
existe coisa melhor do que ter na cabeça, além da dor que já está passando,
lembranças lindas para sentir saudade?
Um lindo texto diz assim:
"Sinto saudade dos amigos que nunca mais vi, das pessoas com quem não
mais falei ou cruzei.
Sinto saudade do presente, que
não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando no futuro.
Sinto saudade do futuro, que se
idealizado, provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser.
Sinto saudade de quem me deixou e
de quem eu deixei, de quem disse que viria e nem apareceu; de quem
apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a
oportunidade de conhecer.
Sinto saudade dos que se foram e
de quem não me despedi direito; daqueles que não tiveram como me dizer adeus; de
gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só enxerguei de
vislumbre.
Sinto saudade do cachorrinho que
eu tive um dia e que me amava totalmente, como só os cães são
capazes de fazer. Saudade dos livros que li e que me fizeram viajar,
dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, das coisas que vivi e das que deixei passar sem
curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de
encontrar não sei o que, não sei onde, para resgatar alguma
coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...
Saudade é a prova inequívoca de
que somos sensíveis, de que amamos muito o que tivemos e lamentamos as
coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência. "
Existência essa que não volta, que não dá uma
segunda chance e que se não for bem vivida só vai deixar na lembrança, uma
sensação de vazio, como se fosse um pedaço quebrado dentro de nós.
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